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Como tornar a sua carreira antifrágil

Se mudança é o processo no qual o futuro invade nossas vidas, qual é o futuro do trabalho que a crise está tornando uma realidade atual?

Como tornar a sua carreira antifrágil
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Créditos da foto - Autor: Anna Shvets - Pexels | Artigo publicado originalmente no Projeto Draft em 17/04/2020

Nassim Taleb é um trader que fez fortuna nos mercados financeiros com uma estratégia em que perdia pouco em tempos normais e ganhava muito em tempos anormais. Em 1987 ganhou o suficiente para se aposentar. Anos depois, ele se tornou o autor do livro “O Cisne Negro”, que descrevia como eventos caóticos e inesperados são impossíveis de prever, porém impossíveis de descartar. Buscando uma palavra para definir o melhor antônimo de      “frágil”, ele não se satisfazia com “robustez” ou “solidez” - porque elas não ilustravam a ideia de crescimento, só de ausência de destruição. 

“Antifragilidade” foi a sua tentativa – e o título de mais um best-seller – para capturar a capacidade de se beneficiar quando um “cisne negro” aparece. O coronavírus é a última de uma longa série de ilustrações em que crises inesperadas acontecem sem ninguém saber dizer quando nem como. A única certeza é que, ao longo de uma vida, cada um passará por várias. O caos econômico que elas provocam destrói empregos e nos leva a questionar como desenhar uma carreira que possa antecipar um mundo de crises recorrentes. Como criar uma situação pessoal em que, primeiramente, você não vai quebrar e, idealmente, vai até se beneficiar a cada período de explosão de incerteza?

A crise sanitária e econômica atual da Covid-19 torna a questão de uma cruel relevância para quem perdeu o ganha-pão. O que seria um  cenário      profissional antifrágil? Primeiramente, uma situação que não seja falsamente sólida. Um salário regular sempre passa a sensação de tranquilidade, mas não deveria. Ninguém mais acredita em uma carreira inteira em uma única -     empresa, tampouco em um só ramo ou função. A Peste Bubônica do século 14, na Europa medieval, provocou várias mudanças na sociedade. A principal e mais famosa foi a generalização do saneamento básico, mas uma outra mudou justamente as relações “trabalhistas” da época. Os servos, até então, tinham que morar e trabalhar na propriedade dos seus senhores, mas a escassez de mão de obra provocou uma liberação generalizada. Camponeses ganharam autorização para irem trabalhar onde quisessem e de negociar condições e salários. Arqueólogos identificaram que foi nessa época que as panelas de barro foram trocadas por utensílios em metal (prova do impacto positivo nas condições de vida). Obviamente, ninguém deseja passar pelo tamanho sofrimento e perda humana que a peste medieval representou, mas seria ingenuidade imaginar que tamanha crise não impacte a sociedade em setores que vão além da saúde e da atividade econômica a curto prazo. Como toda crise, ela funciona como um catalisador de mudanças preexistentes, acelerando a decadência do obsoleto e favorecendo o surgimento do novo.

E uma das tendências fortes que, na minha opinião, o coronavírus faz bascular, é o fim do assalariado.  Tanto o Grupo Hilton quanto o Airbnb estão sendo duramente impactados pelo lockdown de 3,5 bilhões de pessoas. Mas qual dos dois modelos é o mais antifrágil? De um lado, você tem uma empresa com dívidas de ativos imobiliários ou aluguéis, e 169.000 funcionários. De outro, uma empresa ainda muito leve em ativos e com 12.000 funcionários. Obviamente, as consequências sobre um host do Airbnb podem se revelar tão dramáticas quanto as de uma funcionária despedida de um hotel Hilton. Mas já que a maioria dos hosts faz isso como um “side business”, acredito que, mesmo incluindo os 650.000 hosts (dos quais somente 10% são considerados profissionais), a situação continua melhor para a comunidade Airbnb do que para o grupo Hilton.

Anos atrás, viajei para o Nepal e tive a chance de ter uma conversa com um especialista em desenvolvimento rural, que me contou uma estatística fascinante: em média, as camponesas da região tinham 17 fontes diferentes de renda. Estavam longe de serem ricas, mas eram, em média, donas de 17 mininegócios, que iam de criação de galinha a costureira e cozinheira ambulante. E isso me impressionou porque, além de ver uma estratégia extremamente racional de resiliência, me provou que o problema estava longe de ser a falta de talento. 

Carreiras tradicionais podem gerar uma perigosa sensação de conforto - algo que a próxima crise fará estilhaçar em um instante. A busca de múltiplas fontes de renda, facilitada pelo surgimento de plataformas digitais, está se tornando uma estratégia de proteção para uma grande maioria da população ativa. Aqui não estamos falando somente para os poucos qualificados, que vendem seu tempo como motoristas ou entregadores; mas também para quem tem condições de investir em ativos imobiliários para hospedar Airbnbs, fazer pequenos negócios de compra e venda no Mercado Livre ou se inscrever em uma plataforma de freelas, como Odesk ou Upwork, para complementar a renda com projetos digitais elaborados.

A fórmula comprovada para tornar sua carreira antifrágil é não apostar 100% das fichas em uma única fonte de renda. Advogados podem dar aulas, consultores escrever livros ou criar aulas online, executivos podem empreender no tempo livre com um pequeno e-commerce de nicho… possibilidades não faltam. Fora os perigos do “day trading” e das pirâmides, tudo vale a pena ser explorado. E para deixar o meu ponto claro, buscar possibilidades de empreender, além do emprego principal, não quer dizer que acredito em um mundo onde 100% das pessoas viram CEOs de startups (O oba-oba “startupeiro” também já me cansou.). Mas as pessoas não têm um único talento e sempre conseguem abrir novas portas que vão além da sua fonte de renda tradicional. Obviamente, quanto mais habilidades você possui, maior a chance de abrir portas que escondem tesouros. É aí que entra a questão da educação contínua. O mundo que se abre vai olhar cada vez menos para o sobrenome ou onde trabalham e, cada vez mais, para o que as pessoas são capazes de fazer de fato. Na medida em que você avança na vida, o seu diploma perde relevância comparado ao seu portfólio, suas referências, credibilidade, reputação e o jeito que você se adaptou às mudanças do mundo. Alvin Toffler falava que “o analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender.” A capacidade de se reinventar e de alternar períodos criativos e períodos de aprendizagem é a melhor garantia da sua antifragilidade. Não somente você diminui as chances de quebrar, mas aumenta as chances de estourar no ramo que você for atacar.

Isso é realmente a filosofia que os fundadores do Le Wagon, escola de programação em formato bootcamp intensivo, tinham em mente ao lançar a empresa, em Paris, em 2013. No Brasil, lançamos a escola em julho 2016 e compartilhamos a ambição de mudar vidas, ajudando as pessoas a se habilitar para sobreviver em um mundo que valorizará seus “skills” técnicos e humanos, sua capacidade de reaprender do zero e equipar sua criatividade com as ferramentas digitais da época. Afinal de contas, a Peste Bubônica antecedeu a Renascença. Seu laptop e programa de edição de código são as versões modernas dos pincéis, tintas e cavalete do século 15 e a invenção da internet uma revolução tão profunda quanto a da imprensa de Gutenberg. Portanto, tomara que o fim da crise atual dê lugar a uma nova era, tão criativa e próspera.
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